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Observando a vida
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   Maio 26, 2008
COLADO DO BLOGO DO JOSIAS DE SOUZA-26/05/08
No Senado, honestidade vale mais morta do que viva


No ano da graça de 2001, a presidência do Senado foi disputada à maneira dos caiapós de Altamira: na base do facão.
Disputaram a cadeira o baiano Antonio Carlos Magalhães (PFL, à época) e o paraense Jader Barbalho (PMDB).
Prevaleceu, como se sabe, Jader. Depois, descobriram-se “barbalhidades” que assentaram na história do Senado uma de suas páginas mais funestas.
Poderia ter sido diferente. Sob o ruído rascante dos facões, o senador José Jefferson Carpinteiro Péres (PDT) constituía uma alternativa mansa.
Ofereceu aos colegas o bom nome e a biografia impoluta como opções ao escárnio. Jefferson Péres era chamado, então, de “terceira via”.
O Senado preferiu a via de sempre, a tradicional, a “barbalha”. E arrastou para dentro do plenário as malfeitorias que levariam o Congresso à crise e Jader à renúncia.
Mais tarde, Jefferson Péres viu formar-se à sua frente uma barricada. Ergueu-a o ex-senador Ney Suassuna (PB), na ocasião líder do sempre majoritário PMDB de Jader.
Negaram à correção uma cadeira no Conselho de Ética do Senado. O vetado, em entrevista ao repórter Carlos Marchi, reagiu com o humor que lhe era próprio, corrosivo:
"Eu aceitei com humildade, porque o Suassuna, com seu espírito de modernidade, achou que estou superado, com meus 75 anos. Eu defendo umas teses que não são muito atuais – ética, moral, essas coisas. Para o Suassuna, isso é coisa superada."
Enrolado no escândalo das sanguessugas, Suassuna sucumbiu ao entrincheiramento do eleitor paraibano. Jader foi devolvido ao Congresso pelas urnas do Pará. Voltou rebaixado a deputado. Mas voltou.
Na manhã da última sexta-feira, um infarto apontou para Jefferson Péres (PDT-AM) a última, a inevitável, a inelutável via. O senador foi ao esquife com 76 anos. E converteu-se, aos olhos dos colegas, num santo instantâneo.
Seguiram-se à morte lamentações unânimes. “O Senado perde a sua referência moral”, lamuriaram muitos. “É uma perda irreparável”, choramingaram outros tantos.
No Brasil é assim. O cidadão nasce, cresce e vive sob a pele de homem. Mas fenece como santo. Entre nós, a morte é de uma eficácia promocional hedionda.
Os cemitérios brasileiros são hortas de virtudes. O morto com defeitos é uma utopia. A morte canoniza até os piores canalhas.
No caso de Jefferson Péres, todas as loas são justificáveis. Não era santo. Mas levou para a cova a ventura de ter cruzado o pântano da política incólume.
Em meio à impudência, escreveu uma biografia de decência. Compensava a miudeza do físico com o comportamento graúdo.
Esquivava-se das nomeações políticas. Mantinha a mulher no gabinete, negando a ela o acesso ao salário da Viúva. Não punha a mão em verba de representação. Devolvia os presentes que aportavam sobre sua mesa.
Nas muitas crises do Legislativo –à de Jader sobreveio a de Renan Calheiros— Jefferson Péres nunca foi pilhado em gestos ou intenções suspeitas. Confrontado com tentativas de acobertamento, postava-se do lado dos que queriam arrancar a coberta.
Andava desiludido o senador. Falava em abandonar a vida pública. Havia uma dose de cálculo na fuga anunciada das urnas de 2010. Sabia que não eram negligenciáveis as chances de ser barrado pelo voto.
A morte, em sua nefasta sabedoria, poupou o eleitor amazonense de um desatino. E forçou os colegas do senador a pronunciarem um lote de hosanas que soam como expiação tardia de um pecado imperdoável.
Os senadores enxergam no cadáver de Jefferson Péres virtudes que não foram capazes de valorizar enquanto o virtuoso ainda equilibra-se dentro dos sapatos.
No Senado, a honestidade vale mais morta do que viva, eis a revelação que José Jefferson, carpinteiro de um Péres raro, deixa como legado.

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   Maio 18, 2008
COLADO DO JORNAL "O ESTADO DE SÃO PAULO" - 18/05/2008

À beira da indicação democrata, Obama prepara o grande salto
Senador, que deve assegurar nomeação na terça-feira, terá de vencer preconceito para chegar à Casa Branca

Patrícia Campos Mello


Um azarão que teve a audácia de desafiar uma das famílias políticas mais poderosas dos EUA, munido de pouco mais de dois anos de experiência no Senado, sobrenome muçulmano e, ainda por cima, pele negra, deve se tornar nesta terça-feira o candidato do Partido Democrata à eleição presidencial. Se vencer a primária de Oregon, como está previsto, Barack Obama deve acumular mais de 1.627 delegados eleitos. Embora não seja o mínimo de 2.025 (que inclui superdelegados), terá nas mãos a maioria dos delegados considerados fundamentais para bater Hillary Clinton e confirmar a indicação.
Obama é dono de uma história que, por muitas razões, dificilmente poderia ter ocorrido na América de décadas atrás. Ele é filho de uma mulher branca do Kansas que se apaixonou por um muçulmano negro do Quênia nos anos 60, em plena era de segregação, quando a maioria dos Estados ainda proibia o casamento inter-racial.
O advogado de 46 anos usa sua biografia multiétnica e multicultural como trunfo para ganhar votos. O primeiro candidato negro à presidência dos EUA tem, porém, muitos obstáculos à frente. Embora não tenha nenhum escândalo ou fato desabonador no currículo, os republicanos o acusam de ser liberal (termo que, nos EUA, significa estar à esquerda do espectro político).
Sua inexperiência em cargos públicos - trabalhou só no Senado de Illinois e pouco mais de dois anos no Congresso - e a possível ingenuidade em política externa são os principais alvos dos republicanos. Ele insiste no discurso da mudança, dizendo não ver problemas em dialogar com governos com os quais a administração Bush não negocia, como Irã, Cuba e Síria. “Obama não tem experiência em política externa - ela se resume a um curso de Relações Internacionais na faculdade e a ter morado fora quando criança”, disse ao Estado Luke Bernstein, diretor do Partido Republicano na Pensilvânia.
Obama tenta mostrar a vantagem de não ter sido corrompido pelos vícios da politicagem. Admitiu, por exemplo, que não teve tempo de aprender todas as regras de Washington, “só o suficiente para saber que precisam mudar”. Também procura diferenciar experiência de bom julgamento - citando o discernimento que teve ao se opor à guerra do Iraque desde o início.
A raça é outro grande obstáculo. Em um país que bancou a segregação oficial durante anos, muitos brancos se recusam a votar em negros, embora ainda seja difícil quantificar esse racismo nas urnas. Os vídeos do pastor de Obama, Jeremiah Wright, dizendo “Deus amaldiçoe a América” estão no ar em anúncios e certamente serão usados à exaustão no segundo semestre. Eles remetem ao ativismo negro que assusta muitos eleitores brancos conservadores.
E o fato de Obama ser considerado um dos senadores mais liberais do Congresso pode tirar-lhe votos. “Muitos eleitores não vão votar em Obama porque ele vai aumentar os impostos, deixar os sindicatos aparelharem Washington e bater papo com tiranos como Mahmud Ahmadinejad, do Irã”, disse o consultor republicano Todd Harris, com o tom exagerado que deve marcar a campanha daqui para frente.
Para outros observadores, os EUA passam por um momento em que tal revolução é possível. “O fato de que 82% dos americanos acreditam que o país está no caminho errado é uma ótima oportunidade de trazer para as urnas pessoas que não votam normalmente para eleger um candidato mais liberal que a média ”, afirma Michael Dawson, especialista em raça e política da Universidade de Chicago.
Para Paul Green, cientista político especializado na política de Chicago, Obama é um mestre do consenso: “Ele avança com a aliança entre negros e brancos ricos ou com educação superior, a mesma que o elegeu para o Senado.” Mas terá de se livrar do estereótipo de elitista - uma ironia, considerando seu passado humilde, filho de mãe solteira que sobreviveu à base de cupons de alimentação - para conquistar o eleitorado branco operário. “Ele precisa ganhar pelo menos parte desse nicho para vencer a eleição”, adverte Dawson.
Parte do fascínio em torno de Obama se deve à sua trajetória multicultural. A mãe de Obama, Stanley Ann Soetoro (Stanley porque o pai dela queria um filho homem), foi uma revolucionária a seu modo. Aos 18 anos, conheceu Barack Hussein Obama na Universidade do Havaí, casou, e teve Barack Hussein Obama. Barack pai era um pastor de cabras no Quênia, que havia ganho uma bolsa de estudos e se tornara o primeiro aluno africano da universidade. Mas o pai de Obama tinha grandes ambições. Deixou a família no Havaí e foi para Harvard fazer doutorado. O casamento não durou. Após o divórcio, em 1964, a mãe de Obama voltou à faculdade para se formar e casou de novo, mais uma vez com um estudante estrangeiro, o indonésio Lolo Soetoro. Do casamento nasceu Maya, irmã de Obama. A família mudou-se para a Indonésia, maior país muçulmano do mundo, quando Obama tinha 6 anos. Ele viveu lá, numa rua de terra e bairro sem luz, até os 10. Voltou ao Havaí para viver com os avós e estudar. Viu seu pai só uma vez, aos 10 anos. O pai teve oito filhos com quatro mulheres. Morreu num acidente de carro em 1982, aos 53 anos.
Para muitos, essa vivência diferenciada rende a Obama uma perspectiva privilegiada para analisar o mundo. “A experiência no exterior lhe dá uma noção de como é a vida real nos outros países, o que é importante para determinar por que alguém vira terrorista”, disse à Newsweek Tony Lake, que foi conselheiro de segurança nacional de Bill Clinton e hoje assessora Obama.
Obama afirma que, como conseqüência de ter vivido na Indonésia e viajado para o Paquistão na juventude, além de ter amigos muçulmanos na faculdade, tinha muito clara na cabeça a rivalidade entre xiitas e sunitas, o que o levou a se opor à guerra do Iraque desde o início.

LÍDER COMUNITÁRIO

Depois da infância e adolescência no Havaí, Obama fez faculdade em Nova York, na prestigiosa Universidade Colúmbia. Daí foi para Chicago, que adotou como lar. Lá conheceu sua mulher, Michelle, encontrou a fé na igreja do reverendo Wright e desenvolveu seu trabalho como líder comunitário em regiões pobres. Saiu de Chicago para cursar Direito em Harvard. Foi o primeiro negro eleito para a presidência da Harvard Law Review, a revista de direito da universidade. Logo depois voltou para Chicago, onde nasceram suas duas filhas, Mahlia (hoje com 9 anos) e Sasha, de 6. Em 1995, escreveu o best seller Dreams of My Father (“Sonhos do meu Pai”). Em 1996, foi eleito para o Senado estadual.
A mãe de Obama foi sua referência por toda a vida. Ela fez doutorado em antropologia, separou-se do marido e viveu anos na Indonésia. Ann morreu de câncer em 1995, aos 52 anos.
Talvez o grande problema de Obama seja satisfazer as expectativas de seus eleitores. Sean Penn, o ator e diretor que é um dos maiores críticos do governo Bush, resumiu esse desafio: “Estou animado pela esperança que Obama inspira. Mas espero que, se eleito, ele esteja ciente do grau de desilusão que causará se não corresponder à expectativa.”






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