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 Fevereiro 19, 2008
KIKA
A Kika morreu. Simples a definição de um fim, de uma ida sem volta, do que encerra a existência de um ser vivo. No máximo vem acompanhada de um relato dos motivos ou causas, nada mais, morreu, simples assim. Pensando bem, simples como foi a própria Kika durante doze anos em que por aqui esteve. Simples cadela, simples animal, tão simples que só deu e doou amor indistintamente. Só sabia amar, curtir, agradar, brincar.
Não conhecia as complicações do ódio, do rancor, das mágoas, da ânsia de ter e acumular. Seu perdão dependia apenas de um sinal, nada mais. Alegria não vendia, dava ou no máximo partilhava sem egoísmo. O carinho era sua retribuição por receber um espaço e comida. Não conhecia cobrança, vaidade, luxo, só amor.
Dormir com alguém lhe fazia um bem que retribuía com calor. Se havia uma chance de passar o dia de cama ao lado de um querido nem se lembrava de comer ou beber. Era ali que oferecia sua solidariedade a quem precisava, ao lado, sempre.
Não escolhia comida, ração boa, mais ou menos, qualquer uma estava bem. Embora não escondesse sua predileção pela carne ou um franguinho que amava e em especial a cheirosa e provocante mortadela pela qual abanava sem parar o rabinho acompanhado de um olhar piedoso de só querer um pedacinho, uma rodela.
Comemorava aos latidos o gol transmitido pela tv independente do time que o fizesse. Só lhe importava a vibração do locutor e os gritos na sala, quando haviam. Ao espocar dos fogos respondia com um latido bravo que nunca explicou se alegre ou apavorado. Assim também respondia ao interfone de casa, aí pelo instinto da defesa do que era seu, ou a quem se aproximasse do carro, mesmo que fosse um policial. Manifestava um furioso ciúme de crianças, talvez porque pequenos como ela, talvez por lhe usurparem a atenção que tanto prezava, embora não fosse de atacá-las exceto se provocada ou tocada.
Sua bolinha com cheiro de suja era como uma cria de quem corria atrás para proteger e depois vir mostrar. Se lançada na piscina lá ia a Kika resgatá-la da água sã e salva. Era seu frenesi, seu êxtase que pode lhe ter sido fatal. Não sabia parar, queria brincar, só brincar, quem sabe até morrer. As bexigas também eram uma diversão e tanto enquanto jogava-as para cima com o focinho até estourarem e recolher-se triste num canto.
Muito simples, tão simples na vida que se tornou importante na morte. Sua ausência, a caminha vazia, a coleira pendurada, a vasilha de comida sem nada, tudo toca o imo, tudo lembra e faz pensar. Dá muita saudade seu olhar na janela a esperar. Sua inconfundível e sincera alegria em receber e amar. Saudade da Kika.
“Um dia a humanidade conhecerá o íntimo dos animais. A partir desse dia um crime contra um animal será um crime contra a humanidade”.
(Leonardo Da Vinci- 1452-1519)
Coment:
postado por Júlio às 22:55
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