COLADO DO BLOG DO NOBLAT - 13/12/07
Artigo do Professor CARLOS MELO
Imprevidência
É possível que a rejeição à CPMF tenha pelo menos o mérito de dar luz a cego, mostrar o óbvio a quem se recusava enxergá-lo. Claro ficou que, no que tange à articulação política -- e provavelmente não apenas a isso --, o governo Lula é mesmo ruim de serviço; beira o desastre. É de uma imprevidência atroz; de apatia descomunal. Nefelibatas da enorme aliança agora perguntarão o que houve. O que houve? Um caminhão de 40 bilhões de toneladas acabou de passar por cima de ti, meu chapa!
Há um ano, a CPMF não era questão política; sequer problema fiscal que causasse controvérsia era. Bem ou mal, o país acostumara-se ao “mau imposto”. Não mereceu maior atenção no debate eleitoral. Um instrumento de 40 bilhões de Reais que, há um ano, sequer uma escaramuçazinha despertou, tão natural seria sua aprovação. Ora vejam!
O tempo passou e a CPMF virou cavalo-de-batalha, questão de honra. Por quê? Apenas pelo prazer de derrotar o governo? Nem tanto assim, nem só por isso. O maior problema foi que, na verdade, muito rapidamente, as relações se esgarçaram; rápida e surpreendentemente, o governo calcinou o capital político e a possibilidade de diálogo que obteve com a vitória de 2006.
Vitorioso nas urnas sem dever nada a ninguém, Lula fez escolhas de primeiro mandato, no segundo. Errou ao construir tão ampla e, pretensamente, esmagadora aliança quanto ineficiente e disfuncional porque ao cabo anularia qualquer intenção programática mais consistente e autônoma que eventualmente tivera.
Ressentido pelo mensalão e atordoado pelos aloprados, parecia não acreditar na liberdade. Intimidou-se, talvez. O fato é que procurou os aliados mais óbvios e inconfiáveis, que adeririam não a projetos ou programas, mas a cargos e benesses. Não percebeu -- quando era tempo -- que os métodos haveriam de dar num governo refém de seu próprio balcão, incapaz de obter o que negocia; viciado na caneta oficial.
Poderia ser diferente: com a oposição nas cordas, era hora de estender as mãos; esquecer a pancadaria; sepultar o adversário do passado. Inaugurar novo método; buscar a sociedade; abrir o debate nacional; propor reformas, a começar pelo sistema político. Obnubilado pelos maus conselhos do bom momento econômico, Lula se omitiu, porém.
Afinal, nada ojeriza mais ao “pragmático” que a tal da “masturbação sociológica” e a maturação de projetos. Pra quê elucubração se é só abrir portas e porteiras, liberar o segredo dos cofres, reabastecer as impressoras do Diário Oficial? A ansiedade e a esperteza põem o foco apenas no projeto eleitoral. Ponto. Optou-se, assim, pelo menos custoso e enganosamente mais rápido: a cooptação despolitizada e fisiológica.
Não tivemos qualquer arremedo programático à exceção de um discutível PAC. Nenhum esforço de concertación de que falava certo ministro; nada de reforma política; necas de mobilizar a sociedade, a inteligência e as forças políticas na direção do consenso daquilo que seria bom e duradouro para o país. Tão cedo, 2010 surgiu como obsessão.
Veio, então, o prenúncio do desastre: a cizânia, a construção da intolerância, a liquidação do diálogo; o predomínio do fortuito e da incompreensão do acaso, num contexto complexo de interações, causas e efeitos, que é preciso controlar. A imprevidência desastrada deixou que o drama se desenrolasse apenas por acreditar que o desastre, por não poder acontecer, não aconteceria. Aconteceu com o Corinthians e se deu com a CPMF. Para Lula, dois enormes revezes em menos de 15 dias.
As reiteradas tentativas de salvar a pele de Renan Calheiros tiveram o poder de azedar relações. Ampliaram espaço para crítica e para vendeta. O governo não apenas calou, foi condescendente e mesmo permissivo com a desordem que se instalava. Os articuladores, boquiabertos, abstiveram-se; a tempo, não enfrentaram Renan, explicando-lhe a história dos tais dedos que ficam e dos anéis que se perdem e que qualquer criança entende. A sopa e o macarrão que se deu ao azar custaram 40 bi!
As dissidências se consolidaram, reuniram-se forças capazes de declarar guerra e, assim, prenunciou-se o acerto de contas.
Agora, os próximos passos: em primeiro lugar, paradoxalmente, ao eleitorado anunciar o caos e acalmar o mercado. Caprichar nas tintas da falta de dinheiro para Estados e Municípios; responsabilizar a oposição – sobretudo o PSDB – pelas tragédias na saúde, pelos problemas das políticas compensatórias; mas, evitar estouros de boiada, elevações de dólares e riscos, o fantasma da inflação. Mudar a mentalidade? Menos provável. Mais plausível que se acirre a guerra, mas com rigorosa política monetária e superávit fiscal. Já se viu que há loucos para tudo, menos para mexer com a DRU.
Ao DEM/PFL cabe comemorar: agiu unificado; não vacilou; hegemonizou os tucanos; foi alçado ao grau de “a” oposição. Ao PSDB, maior desafio: fechar feridas; suavizar a bronca de governadores que ficarão no prejuízo do corte de recursos e obras, além terem sido de cruamente expostos; acalmar senadores que serão cobrados nos Estados e que, é claro, cobrarão o mais pefelista dos tucanos, o líder Arthur Virgílio.
À oposição será atribuída a responsabilidade por todos os males; um exagero malicioso e um erro formal, é claro. Todavia, difícil negar, quem, ao final, cortou recursos e não aceitou apelos os mais sentidos e despojados – que ao final não eram mesmo para ser aceitos. O racional político é o que interessa. No mais, bobagem acreditar que, em ano de eleição, se faça ajustes fiscais mais profundos ou se aperte cintos, como exige a oposição ou faz querer acreditar aos mais inocentes.
Enfim, o óbvio se revelou com todas as cores, algumas sombrias. Não foi falta de aviso. Nos primórdios do PT, um ditado dizia que “Deus protege os bêbados, as crianças e os petistas”. Nem sempre, nem sempre... Deus parece ter mais o que fazer.
Carlos Melo, cientista político, doutor pela PUC-SP, professor de Sociologia e Política do Ibmec São Paulo. Autor de “Collor: o ator e suas circunstâncias” (Editora Novo Conceito). E-mail: carlos.melo@isp.edu.br
Coment:
postado por Júlio às 20:51